quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A corrida que não terminou na linha de chegada

 

Hoje foi dia da Corrida Internacional de São Silvestre, a mais emblemática maratona do Brasil. Gente do mundo inteiro corre não apenas por tempo ou colocação, mas em homenagem a algo muito mais antigo do que o esporte: o espírito humano em movimento. Perseverança, disciplina, responsabilidade, comprometimento e fé. Curiosamente, valores que há tempos sofrem ataques sistemáticos — tratados como ultrapassados, descartáveis ou, pior, motivo de escárnio. 

É impossível para um brasileiro com mais de trinta anos assistir a uma maratona sem ser puxado pela memória até um nome inevitável: Vanderlei Cordeiro de Lima. Em 2004, ele liderava a maratona olímpica em Atenas. Faltavam cerca de sete quilômetros para a glória quando foi atacado por um fanático, lançado para fora do percurso, arrancado do ritmo e do sonho. Vanderlei caiu, levantou, seguiu. Foi ultrapassado e terminou em terceiro lugar. 

Quando cruzou a linha de chegada, cercaram-no os repórteres. O Brasil, àquela altura, fervia. Havia revolta, indignação, um desejo quase coletivo de gritar por justiça. Esperava-se raiva. Esperava-se denúncia. Esperava-se ódio. Mas Vanderlei entregou silêncio interior em forma de palavras. 

“Aconteceu uma coisa que não devia acontecer numa Olimpíada, mas isso faz parte do esporte. 
Não tenho raiva, não tenho mágoa. 
Fiz o meu melhor, dei tudo o que eu tinha. 
O povo brasileiro pode ter orgulho. 
Deus sabe o que faz. Ele tem um propósito para tudo. 
Saio feliz com a medalha e agradecido.” 

Aquelas frases desmontaram qualquer possibilidade de vitimismo. Não houve espaço para ódio. Não houve combustível para ressentimento. Foi uma avalanche inesperada de dignidade e gratidão. Muitos, ao assistir, sentiram algo raro: vergonha dos próprios pensamentos — e, ao mesmo tempo, alívio. Como se alguém tivesse lembrado ao país que ainda é possível sofrer injustiça sem se tornar refém dela. 

Acontecimentos assim têm força para moldar gerações. Para mudar indivíduos, culturas, talvez até países. Talvez por isso mesmo aquela entrevista tenha desaparecido. Hoje, é quase impossível encontrá-la integralmente em redes sociais ou mecanismos de busca. Ela não vive mais nos arquivos públicos — vive apenas na memória dos que estavam atentos o suficiente para perceber o tamanho do que aconteceu. 

Vanderlei seguiu sua vida. Foi homenageado, reconhecido, e recebeu do Comitê Olímpico Internacional a Medalha Pierre de Coubertin, a maior honraria concedida pelo espírito esportivo. Tornou-se um dos atletas brasileiros mais respeitados deste século. Mas poucos percebem que o verdadeiro acontecimento daquele dia não foi o ataque de um fanático. Foi a resposta de um homem inteiro. A corrida terminou na linha de chegada. O exemplo, não.

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