sexta-feira, 3 de maio de 2013

Empresa à deriva

Uma empresa, seja ela familiar, ou não, pode ser comparada a um barco pesqueiro em alto-mar.
Digo que pode ser familiar ou não, porque tratarei aqui com mais ênfase nas empresas dirigidas por famílias, onde nem sempre a organização é seu forte.
Como em um pesqueiro, a empresa precisa de uma meta, lucros e extremos cuidados para não “afundar”. E pede que todos os fatores internos e externos ligados a ela, sejam observados com o máximo de atenção.
Esses fatores podem ser comparados e estudados um a um, e veremos uma grande ligação entre eles. Vejamos:
Num pesqueiro, é o capitão quem escolhe o rumo que todos irão seguir, escolhe as regras, quem embarca ou não. Cuida dos mantimentos e dos detalhes para o barco navegar. Numa tormenta, toma todas as decisões. E é o grande responsável em caso de um bom dia de pesca.
Assim se torna óbvio que numa empresa, o capitão é o dirigente ou o “dono”. Esses substantivos serão sempre utilizados no singular, pois, por mais que se trate de um grupo de dirigentes, ou de uma família que
esteja à frente do negocio, as decisões precisam ser fruto de um consenso, visando ser as mais acertadas o possível.
Sabe-se que, num pesqueiro, por mais que o capitão escolha a rota e tome todas as decisões, ele precisa primeiro cuidar para que o mesmo continue navegando sem avarias. Para isso ele não pode ignorar nenhum
fator que colabore para o mesmo. O casco tem de estar intacto, os tripulantes empenhados, o motor funcionando e as redes tem de trazer peixes.
Veremos a seguir que todos esses fatores são de suma importância, e podem ser comparados a um setor específico de todas as empresas.

O Casco
O casco é o setor mais importante numa embarcação. Ele não pode ser ameaçado nunca, pois mantém o barco flutuando e dá proteção a todos. Por esses motivos, antes de tomar qualquer decisão, o capitão precisa pensar no casco, e vez ou outra, mudar a rota para que o mesmo não seja ameaçado.
Por isso o casco se trata do financeiro das empresas. Nada pode ser feito sem antes o financeiro ser consultado e ter aprovado.  Ele é o esqueleto da empresa, e uma vez que ele fique demasiadamente avariado a empresa tem grandes chances de ir à falência.
Por mais que o capitão queira seguir uma rota ele precisa prever os obstáculos no caminho e segurar o barco ou mudar a direção. Se uma empresa familiar toma atitudes pensando somente na família, ela tem grandes chances de prejudicar seu financeiro, e por conseqüência abalar o sistema todo.
O financeiro precisa ser respeitado e escolher quando se pode abrir o cofre para investimentos ou precisa conter os gastos, evitando o pior para todos.
Muitas empresas familiares desrespeitam essa regra, investindo valores indevidos em bens pessoais, que não tem interesse para a empresa, resultando num acúmulo de dividas que pode se tornar perigoso.
O financeiro está sempre disposto a distribuir os lucros e fazer investimentos, mas requer que seu ritmo seja seguido à risca, com muito planejamento.

As redes de pesca.
As redes trazem os lucros para a tripulação. Elas pescam os peixes, que são o grande objetivo da viagem, e precisam fazer isso com o máximo de competência. Sendo assim, as redes são chamadas de setor de compras nas empresas.
Num mercado com um grande número de concorrentes, principalmente quando se trata de micro e pequenas empresas, a diferença entre o quanto se gasta para produzir determinado produto e o preço final de venda, costumam ser cada vez mais próximos. Ou seja, para ganhar mercado muitas empresas precisam obedecer o preço final aceito pelo mercado.  Sendo assim, o setor de compras é determinante para os lucros das empresas. Uma vez que se compra bem e mantém uma boa relação com os fornecedores,
melhorando prazos e garantindo a matéria prima, terá mais facilidade de vender no preço de mercado e mesmo assim lucrar uma boa porcentagem no final.
O gestor precisa exigir o máximo do setor de compras e nunca se dar por satisfeito. Sempre existe uma negociação que pode ser melhorada ou um novo fornecedor querendo entrar no mercado. Mas vale lembrar que a boa relação com o fornecedor é primordial, pois não adianta comprar mais barato se não tem garantia de entrega do produto.

Os tripulantes e os mantimentos
Num pesqueiro os tripulantes nunca devem estar descontentes. Se tal situação ocorrer, o primeiro resultado é a queda geral no rendimento, e por conseqüência uma quantidade menor de peixes fisgados.
Os tripulantes não podem ter fome nem sede. Precisam ter boas condições de trabalho e quase nunca trabalhar à exaustão. Digo “quase”, porque se o tripulante estiver contente e mantiver uma boa relação com
sua equipe e capitão, quando se fizer necessário, seja numa tormenta ou num bom dia de pesca, ele vai trabalhar mais que o de costume sem reclamar.
Os tripulantes, é obvio, são os colaboradores da nossa empresa. Os mantimentos, o setor de RH.
Os colaboradores tem de estar contentes e comprometidos com os objetivos da empresa. Eles são a vitrine, e normalmente quem mantém o primeiro contato com os clientes.
Quem deve fazer esse quadro se tornar uma realidade é o setor de RH. E o gestor tem que tomar todo o cuidado para que ele obtenha sucesso. Para um colaborador estar contente não existe nenhum mistério. Deve-se remunerar de acordo com o merecimento; elogiar o trabalho quando necessário; garantir que a carga horária seja justa e se encaixe nas limitações da equipe; dar treinamento adequado; aceitar as sugestões e críticas; aplicar modificações e melhoramentos quando se fizer necessário.
Por outro lado, o setor de RH tem de evitar os “piratas” que se encontram pelo caminho. Não deixando que estes permaneçam muito tempo na empresa e não contamine os bons colaboradores.

O Motor
O motor tem sempre que estar trabalhando. Nunca deve ser desligado. Vez ou outra ele diminui a potencia, e só para totalmente, mesmo que por pouco tempo, se o clima estiver bom e o mar cheio de peixes.
Falamos aqui do setor de marketing e propaganda. Pois sempre se disse que a propaganda é a alma do negocio. Os maiores conglomerados empresariais do mundo deixam de divulgar sua marca e seus produtos. E não é possível que eles estejam enganados.
O marketing move a empresa e a faz alcançar novas metas e lucros. Mas essa área, como todas as outras, precisa sempre respeitar as decisões do financeiro. E só pode estar a todo vapor quando todas as outras áreas estiverem funcionando com extrema precisão. Pois não adianta alavancar as vendas se não tem condições de atender a demanda.

O capitão
Todo pesqueiro que possui um sábio capitão está fadado ao sucesso.
É óbvio que sempre haverá tempestades no caminho, mas um bom capitão saberá escolher a rota menos perigosa. Saberá, também, respeitar todos os setores e os manterá em ordem. Pois ele sabe que a embarcação tem de continuar navegando e trazendo lucros para todos os tripulantes.
Numa empresa familiar, onde existem vários capitães, é preciso que todos tenham esse conhecimento e não pulem as etapas. Todos devem saber que o que tem de ser preservado é a saúde financeira da empresa, e a
mesma tem de render frutos. Uma vez que a empresa estiver ameaçada, toda a família estará também, e isso acaba sendo prejudicial a todos.
A empresa tem de se manter firme no mercado e sempre continuar navegando.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Inimiga Soberba

Nesta quarta o Corinthians foi derrotado pelo Boca Juniors dentro da mística La Bombonera. Mas pode-se dizer que a derrota foi mais culpa do próprio Corinthians do que do desempenho do Boca. Os Argentinos tem um time que é somente a sobra do time finalista do ano passado – que já não era lá essas coisas – e se agarraram na história e na pressão que a torcida faz dentro dos seus domínios. O Corinthians por sua vez, vem sofrendo com um tipo de acomodamento que ataca diversos times multi-campeões, especialmente no Brasil. Uma soberba onde os jogadores sentem que podem fazer o resultado a qualquer momento e relaxam na raça e vontade de lutar. E quando um time cai nesse pecado ele é castigado pela bola e pelos “deuses do futebol”. Por isso esse é o esporte mais maravilhoso do mundo.
Mas, por outro lado, o Corinthians volta para o Brasil com um resultado “menos ruim” do que poderia ser. Apesar do perigosíssimo placar de 1x0 a situação é claramente possível de ser revertida. O maior trunfo da equipe é seu plantel recheado de jogadores de qualidade e que, com toda certeza, entenderam a lição recebida ontem. O clima dentro do avião deve ter sido de indignação para com eles mesmos pela vergonhosa atuação dentro de campo.
A resposta tem que ser dada dentro de campo, e já no próximo compromisso, contra o SPFC. A velha raça tem que voltar e o suor tem que escorrer vermelho. Como diria o professor Adenor “treino é jogo e jogo é guerra”. Com esse espírito aliado à qualidade técnica dos jogadores, muito provavelmente o Timão passará dessa fase da Liberta e chegará à final do Paulista. Fácil não vai ser. Nunca é. Mas é possível, e muito.

“O rato que tem medo” (Millôr Fernandes)


A história é bem simples. Um rato que depois de muito sofrer pede para um grande mágico transformá-lo em um gato. Não suportava mais ser perseguido e intimidado.
Nem bem foi transformado, ironicamente, passou a perseguir todos os ratos que encontrou. Porém, com inédita crueldade e efetiva precisão. Afinal conhecia com propriedade o modus operandi destrutivo dos ratos.
Viveu satisfeito até encontrar um cão – que então o persegue.
Implora mais uma vez para que mágico o transforme, dessa vez em um cão, e assim, por efeito da magia vai subindo sucessivamente a escala zoológica até chegar na iminência de ser transformado em ser humano.
Nessa passagem, o mágico, numa peripécia o transforma novamente num rato.
- Mas por que voltei a ser rato?  – pergunta o animal, transbordando frustração.
É com a sabedoria típica das fábulas que o Grande Mágico responde:
- De que adiantaria para o mundo mais um Homem com “coração de rato”!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

E os alambrados?


A Copa do Mundo se aproxima e muitos estádios estão sendo inaugurados ou estão na fase final das obras. Um dos fatores que mais chama a atenção em todos eles é a ausência de alambrados e a proximidade da torcida com a lateral do campo e banco de reservas.
Esta característica é claramente espelhada no futebol europeu, mais especificamente no futebol inglês. Os organizadores da Copa 2014 só estão esquecendo um mero detalhe: não estamos na Europa. Os estádios da terra da rainha e a liga inglesa são exemplos a serem seguidos pelo mundo todo. Entre os pontos positivos estão organização, comportamento da torcida, respeito entre os jogadores e organizadores do evento. Entretanto, para chegar a um nível tão apurado de competitividade os ingleses tiveram muito trabalho. Os Hooligans espalharam terror por toda a Europa na década de 80, fazendo até com que os times da Inglaterra permanecessem banidos de copas UEFA por um período de cinco anos. Somente após essa sanção os dirigentes ingleses tomaram medidas para banir a violência dos estádios e por consequência evoluir aos níveis encontrados hoje em dia.
No Brasil não existem Hooligans, mas torcedores com comportamento que, no mínimo, traz lembranças deles. Se os responsáveis pela Copa estão pensando que somente com a retirada dos alambrados esse comportamento vai melhorar, estão redondamente enganados. Sem medidas legais e punições exemplares àqueles que brigarem nos estádios, depredarem o patrimônio ou atirarem objetos no campo, a história não vai mudar, e o que veremos na Copa será um verdadeiro pandemônio causado por alguns "torcedores".

terça-feira, 23 de abril de 2013

Maioridade Penal

Diversos setores da sociedade tem debatido constantemente sobre a redução, ou não, da maioridade penal. Um lado a defende, pois a revolta é grande com  casos recentes de criminosos que ficam impunes após cometer homicídios, latrocínios, tráfico de entorpecentes e tantas outras barbaridades. Outros seguem contra, e defendem teses de que a diminuição da maioridade penal não vai resolver o problema, apenas agrava-lo. Colocar um menor dentro de um presídio com criminosos "de verdade", aliada a falta de estrutura do sistema carcerário só vai incentiva-lo a continuar no mundo do crime. Defendem ainda a que a solução é investir na educação para evitar que esses menores adentrem à vida criminosa.
É claro que o sistema educacional, nem o carcerário, estão sendo bem administrados no Brasil. Entretanto, utilizar este problema para justificar a manutenção de outro, a maioridade penal aos 18 anos, é equivocado e irresponsável. As vítimas desses menores - que por vezes são presos portando um sorriso irônico frente  a certeza de liberdade - tem de conviver com o desrespeito e com o sentimento de injustiça. Onde está o respeito com os pais do estudante que foi assassinado semanas atrás no campus de uma faculdade? Simplesmente não existe.
Num mundo perfeito, presídios não deveriam existir. Todos os jovens deveriam sair das escolas com noções de respeito às leis e com uma noção cultural que não os permitisse cometer crimes. Deveriam ainda ter uma base econômica que suprisse suas necessidades básicas de sobrevivência. Mas infelizmente, um mundo perfeito não existe, e nossos políticos não são capazes de prover nem o básico para muitos jovens. O caminho que sobra é a punição justa àqueles que recorrem ao mundo do crime. Criminosos são criminosos, não importa sua idade. O que não pode acontecer é a sociedade continuar sendo agredida com escândalos de injustiça e o medo recorrente com a consciência de que o mesmo homicida de ontem estará nas ruas amanhã.

sábado, 6 de abril de 2013

Expo Londrina


Tempos atrás estava falando com o amigo Vicente Penha sobre o porquê de ir ou não à Exposição em Londrina. Ele defendeu seu ponto de vista com uma simples afirmação.

"A exposição é para dois tipos de pessoas: para o rico e para o jacu.
O rico expõe e o jacu paga pra ver.
Como não sou nenhum dos dois, prefiro não ir."

terça-feira, 5 de março de 2013

Que joguem somente os grandes!


A Federação Paranaense de Futebol tem que pensar seriamente sobre seu futuro. Do jeito que as coisas caminham, seu campeonato ruma para a falência, da mesma maneira que muitos outros estaduais pelo Brasil.
São inúmeras as dificuldades para se manter um time do interior. A começar pela folha salarial e modelo contratual com os jogadores. Atletas de qualidade querem contratos estáveis e salários compatíveis com seus rendimentos, o que só os times grandes tem condições de oferecer. Sem um calendário seguro, os gestores tem que fazer malabarismos para montar times competitivos; A ausência de resultados de expressão cria uma certa desconfiança nas torcidas, e estas tardam a levar públicos consideráveis aos estádios, o que por sua vez, diminui a média de bilheteria do campeonato todo.
Alheio a estas dificuldades, o Londrina Esporte Clube montou um time de encher os olhos para o ano de 2013. Atletas de qualidade e um grupo unido que provou ter chances de medir forças com os grandes da capital. Os londrinenses abraçaram a causa, e mesmo com um ingresso considerado caro, o Café estava lotado para aquela que seria a grande final do primeiro turno. 
Mesmo assim, um filme se repetiu. Três pênaltis não marcados - um deles escandaloso - e uma partida amarrada pela arbitragem jogou o time à lona e frustrou milhares de Londrinenses que viam como certa a participação do seu time na final do Campeonato Paranaense. Vergonha no café. 
A Federação não pode ficar de braços cruzados. Não é a primeira vez que um time do interior é claramente prejudicado. Como ter um campeonato decente, se somente três times tem chances reais de levantar o caneco? 
Está mais do que provado que o paranaense ama o futebol e lota seus estádios. Estaria a FPF ignorando este público-alvo e dando atenção somente para os torcedores da capital? Até onde vai sua participação nestas atuações tendenciosas da arbitragem? Está tomando atitudes para resolver o problema?
São muitas as perguntas e poucas as respostas. O que fica é o sentimento de que, caso um time do interior chegue, forças ocultas não deixarão que este alcance uma glória maior.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Punição ao Corinthians


Pois bem. Fomos punidos. Após pressão de todos os lados, motivada principalmente pelo ódio que o Corinthians desperta nas pessoas, não vamos ter público no Pacaembu nessa Libertadores, ao menos até a decisão ser revertida.
Perde o Corinthians, perde a torcida e perde o campeonato, por não contar com uma das mais belas festas organizadas em um estádio de futebol.
Engana-se quem pensa que os Corintianos não vão ao Pacaembu. A praça Charles Miller vai estar inundada pela Fiel no próximo jogo. Faremos nossos gritos chegar aos ouvidos dos jogadores e seremos personagens, mais uma vez, de um feito único na história do futebol. Após invadir o Maracanã e depois o Japão, agora invadiremos os arredores do Pacaembú, nossa eterna casa.
Em campo nosso time não vai se abater, disso tenho certeza. Nosso professor vai utilizar cada segundo dessa injustiça para despertar o máximo de raça e determinação de cada jogador. Vamos longe nessa Libertadores, podem esperar!
Mas espero que essa punição não passe em branco. Vamos cumprir com rigor o que determinar a Conmebol, mas vamos exigir que sejamos tratados da mesma maneira quando estivermos fora de nossos domínios. Chega de bater escanteios protegido por escudos policiais, chega de admitir objetos de todos os tipos lançados contra nossos jogadores. Chega de jogar em estádios sucateados e sem estrutura alguma para receber uma partida de futebol.
A morte do menino foi uma tragédia, isso é fato. Mas o Corinthians pagar sozinho, não é justo. A diretoria não organizou a partida, e por isso estava de mãos atadas quanto à qualquer medida que pudesse evitar tal acontecido.
Ainda podemos recorrer da decisão, mas duvido muito que algo mude, ao menos na primeira fase...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Confissões de um homicida

*Uma história fictícia, mas que acontece quase todos os dias...


A cela é fria. Uma dor de cabeça me domina e as lembranças começam a despertar. O dia ainda não raiou e a escuridão faz com que meus pensamentos se tornem mais obscuros do que deveriam ser. Lagrimas já não escorrem mais. Uma mescla de arrependimento com desespero é o que chega mais próximo de definir meus sentimentos. O hálito azedo me faz lembrar das várias doses de vodka do belo início da noite. As mangas da blusa com manchas de sangue levam minhas lembranças para o trágico final dela. Frio... sinto frio...
Em minha companhia, bandidos de todos os tipos. Traficantes, assaltantes, estupradores, assassinos. Provavelmente todos culpados, que levavam uma vida voltada aos crimes e ao desacato das leis. Pessoas frias, com olhares gelados, que parecem sentir um macabro prazer ao me ver encarcerado junto a eles. As paredes mal rebocadas e o chão duro me fazem lamentar a infinita distancia do meu confortável quarto, onde estaria descansado para mais um dia de trabalho.
Este não é o meu lugar. Costumava ser uma pessoa honesta e justa. Tinha um trabalho digno, pagava meus impostos e honrava meus compromissos. Era pontual. Tinha uma bela família e muitos amigos. Mas agora, já não sei o que desse passado irá sobrar. Se algo sobrar.
Como poderia imaginar que essa noite que começou tão alegre e descontraída fosse terminar comigo no fundo de uma cela?
Quem dera pudesse ver o futuro, assim não teria bebido. Mas pensando bem, os avisos estavam ali. Agora me recordo das propagandas alertando para o perigo de beber e dirigir. A imprensa noticiava todos os dias casos de pessoas embriagadas matando inocentes. Tudo parecia tão distante, e os culpados nunca eram punidos. Caso tal tragédia tão surreal acontecesse comigo, eu também não seria punido. Assim são as coisas no Brasil. Políticos assaltam o contribuinte o tempo todo, fazem carreira em Brasília às custas da corrupção, cometem um verdadeiro genocídio garfando dinheiro da saúde e da educação, mas nunca são punidos. Assassinos se prendem às artimanhas de brilhantes advogados e saem andando pelas ruas com seus habeas corpus debaixo dos braços. Porque eu seria condenado?
Os avisos estavam ali, mas como um bom brasileiro, eu estava programado para não acreditar na justiça. Preferia pensar que algum novo entendimento ou brecha na lei pudesse me salvar. Agora já não tenho tanta certeza. As leis mudaram, aos menos as leis que hão de me julgar. Hoje amanhecerei um criminoso, homicida.
Talvez tivesse tido sorte melhor não colocando o sinto de segurança, e assim, seguiria o mesmo caminho do inocente casal de namorados que atropelei enquanto caminhavam pela calçada. Meu corpo estaria ao lado dos seus, como que se desculpando e tentando criar alguma cumplicidade.
Não os conhecia, nunca havia visto, mas os matei. O que dirão seus  familiares? Tem pais? Tem filhos? Tinham planos para o futuro? Talvez essa seja a única semelhança entre nós, pois agora já não tenho mais futuro. Nada sei dos dois, apenas que seu sangue é vermelho e que seus corações não pulsam mais...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Mais uma vez, tragédia...


Na noite de Natal, uma menina foi vítima de uma bala perdida na cidade do Rio de Janeiro. Quando chegou ao hospital, o médico que deveria estar de plantão, não estava presente. A garota esperou cerca de 8 horas para ser atendida e operada, e alguns dias depois acabou perdendo a vida.
Este é o resumo de mais um episódio trágico que se repete praticamente todos os dias em algum lugar do nosso extenso e desorganizado país. Talvez tenha ganho mais dramaticidade e cobertura da mídia por se tratar de um tragédia no dia de natal,  onde uma criancinha vai brincar com seu presente no meio da rua e acaba vítima de uma bala perdida.
Culpados para o caso não faltaram. Hora eram os pais descuidados, por deixar a menina sair na rua sozinha. Depois, a criminalidade que alcança níveis alarmantes em todo território nacional. Talvez a própria menina, por ter nascido num país onde reina a hipocrisia, a burocracia, e a total desorganização do poder público. Entretanto, a vítima preferida dos noticiários, sempre foi o médico plantonista. Poucos se importaram em saber as reais razões para ele não estar presente naquele dia no hospital, nem as condições de trabalho às quais ele, e todos os médicos da rede pública estão sujeitos. A ordem geral era sabatinar o homem, e transforma-lo num homicida doloso/hediondo.
Nesta semana, enfim, o médico resolveu esclarecer os motivos de suas faltas, e qual deveria ser o procedimento do hospital para sanar o problema. Novidades no depoimento, nenhuma. O médico alegou ser vítima da burocracia que cerca o poder público, pois já estava tentando ser demitido durante todo o mês de Dezembro. Reclamou ainda das condições de trabalho inumanas às quais tinha que se submeter para realizar as operações. Disse ainda que em caso de uma falta - a qual tinha sido previamente informada - quem deveria substituí-lo era o chefe do plantão. Enfim.
Nenhuma dessas alegações trarão a vida da menina Adrielly de volta. Mas talvez despertem a atenção das autoridades para o caos ao qual a população é submetida.
Balas perdidas no RJ não são novidades. Atendimento precário nos hospitais muito menos. Entretanto, vidas precisam ser perdidas para que os verdadeiros responsáveis façam o serviço para os quais foram contratados - ou eleitos. Medidas emergenciais devem ser tomadas e por algum tempo a situação talvez se torne menos caótica. Mas logo a população vai esquecer ou concentrar suas atenções em outras coisas (vem ai o BBB), e as tragédias voltarão a acontecer. E a população novamente vai se revoltar, depois vai esquecer.... e de novo... e de novo... e de novo...  

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